"A
marca da história da EJA é a marca da relação de domínio e humilhação
estabelecida historicamente entre a elite e as classes populares no Brasil, na
concepção que as elites brasileiras têm de seu papel e de seu lugar no mundo e
do lugar do povo. Uma concepção que nasce da relação entre conquistador e
conquistado/índio/escravo, e perdura em muitos documentos oficiais que parecem
tratar a EJA como um favor e não como o pagamento de uma dívida social e a
institucionalização de um direito (CURY, 2000). Algo inferior, para cidadãos
inferiores. Essa concepção fomenta o preconceito contra seu público: adulto
analfabeto, considerado “incompetente, marginal, culturalmente inferior”
(FÁVERO, 2004, p.15), que tem sido profundamente internalizado por estas
pessoas que se julgam sem direito à educação. (...)"
"O
caráter de educação de segunda classe para as pessoas adultas das classes
populares pode ser verificado ainda, atualmente, no que se refere ao
financiamento. Inserida na proposta do Fundeb, que entrou em vigor a partir de
julho de 2007, a EJA recebe sempre um valor por aluno menor que o destinado ao
Ensino Fundamental de crianças, podendo essa diferença, como no caso do
Distrito Federal, chegar a menos da metade (BRASIL, 2009). Como expressão dessa
história de relação de domínio, tensões e ambiguidades da EJA, até hoje ainda
sobressai sua função supletiva compensatória (educação para pessoas que não
tiveram o direito à escola antes da vida adulta) praticada por boa parte das
instituições. Isso acontece a despeito da existência, hoje, de um discurso que
se refere à EJA como direito à educação permanente para todos, intensificado a
partir da década de 90 com a realização de conferências internacionais (em
Jomtien, 1990 e em Hamburgo, 1997), que reiteraram a importância da EJA para
todos os povos do mundo e da educação em geral, visando à participação dos
cidadãos na sociedade do conhecimento e da informação. As visões de suplência e
de direito à educação permanente, que podem ser percebidas como antagônicas,
estão presentes no cotidiano das atividades de EJA e influenciam o trabalho
realizado. Essa contradição, ambiguidade e complexidade são características da
nossa sociedade. É a organização social brasileira que, embora tenha espaço
para que alguns desenvolvam a educação permanente como forma de atualização de
conhecimentos e aprendizagem durante toda vida, para outros, que não tiveram
direito de acesso e permanência na escola, exige a atuação reparadora (CURY,
2000), no sentido de oferecer à população um direito que historicamente lhe foi
negado."
Marisa
Narcizo Sampaio
Professora adjunta do Departamento de Educação
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Doutora em Educação. E-mail:
marisamns@gmail.com
Artigo EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: UMA HISTÓRIA DE
COMPLEXIDADE E TENSÕES
Abaixo, segue uma reportagem da Revista Época
de 2016
http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2016/06/maria-clara-di-pierro-perdemos-32-milhoes-de-matriculas-na-educacao-de-jovens-e-adultos.html
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